05/11/2026

Wi-Fi de 6 GHz pode ampliar atuação dos provedores no acesso fixo sem fio

Anatel detalha regras para uso externo da faixa; UFC apresenta cálculos de potência e Ruckus desenvolveu e já testou seu sistema para o AFC.

Wi-Fi de 6 GHz pode ampliar atuação dos provedores no acesso fixo sem fio

A liberação do uso externo do Wi-Fi na faixa de 6 GHz poderá ampliar a atuação dos provedores de internet no acesso fixo sem fio (FWA), com atendimento a localidades onde a implantação de fibra apresenta dificuldades e a projetos empresariais. A possibilidade foi discutida nesta quinta-feira, 5 de novembro, no painel “Wi-Fi Outdoor: liberando o potencial dos 6 GHz”, na Abrint Nordeste, evento que acontece de hoje a sexta em Fortaleza (CE)*. A operação depende da conclusão das regras em consulta pública pela Anatel e da validação dos sistemas responsáveis por coordenar o uso das frequências.

Moderador do debate, Basílio Perez apontou que a utilização da faixa em ambientes externos daria aos provedores mais uma alternativa para competir no mercado de banda larga. “Nós teríamos os recursos para poder concorrer nesse mercado e não estamos concorrendo porque não tem o outdoor ainda disponível”, afirmou.

Segundo Perez, a tecnologia poderá ser utilizada em locais onde o atendimento por rádio seja mais adequado do que a construção de uma rede de fibra. Carlos Santos, representante da TP-Link, também relacionou a mudança à possibilidade de os provedores disputarem projetos empresariais, citando mineração e cidades inteligentes.

Anatel prepara regras para os 500 MHz inferiores

Sidney Nince, representante da Anatel, lembrou que a proposta de uso externo abrange o intervalo entre 5.925 MHz e 6.425 MHz, correspondente aos 500 MHz inferiores da faixa de 6 GHz. A condição é proteger os serviços que já utilizam essas frequências, especialmente radioenlaces.

Na apresentação, Nince informou que cerca de 4,4 mil estações utilizam esse intervalo para outros serviços. A coexistência será feita com o auxílio do AFC, sistema de coordenação automática de frequências que calcula os canais e as potências permitidos para cada ponto de acesso.

“Ele não é mudança de protocolo Wi-Fi”, afirmou. “Ele é simplesmente uma calculadora para indicar para o dispositivo Wi-Fi em que canal, em que potência ele pode operar.”

Segundo Nince, as consultas públicas 41 e 42 recebem contribuições até 3 de dezembro. A primeira trata de alterações nos requisitos dos equipamentos de radiação restrita e nos procedimentos de certificação. A segunda aborda os requisitos do AFC.

A proposta prevê que os pontos de acesso tenham capacidade de geolocalização e consultem o sistema antes de iniciar a operação, com consultas diárias. Informações como coordenadas, altura da antena, fabricante e número de série permitirão identificar o equipamento e calcular suas condições de funcionamento.

Depois da análise das contribuições e da publicação dos atos, os sistemas apresentados pelos desenvolvedores deverão passar por testes e avaliação. Não foi anunciada uma data para o início da operação comercial.

UFC apresenta resultados de estudo em Quixadá

Francisco Rodrigo Porto, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), apresentou um estudo de caso em Quixadá, no sertão central cearense, com coordenadas reais e dados públicos da Anatel. O trabalho utiliza uma implementação de código aberto de AFC, ainda baseada nos parâmetros da agência reguladora dos Estados Unidos, com preparação para adaptação às regras brasileiras.

“Nós nos apropriamos já do código e estamos nos preparando para fazer os ajustes, as adaptações, para alinhar essa solução com a regulação que a Anatel vai publicar”, afirmou.

O cenário considera um ponto de acesso em uma região a aproximadamente 500 metros de altitude, onde a universidade já realiza experimentos com acesso à internet por espaços em branco de televisão. Para avaliar a operação do Wi-Fi, a equipe identificou três receptores de radioenlaces nas proximidades: dois da Claro e um da TIM.

Nos três primeiros canais de 160 MHz apresentados, dentro do recorte de 500 MHz considerado para uso externo no Brasil, o sistema calculou potências de transmissão de 26,6 dBm, 34,2 dBm e 34,3 dBm. Em outra tabela, com resultados para canais de 20, 40 e 80 MHz, Porto destacou que o cálculo chegou a 36 dBm em torno de 6.100 MHz.

Segundo o professor, a variação está relacionada à posição dos radioenlaces, às características das antenas, à distância e à frequência de operação. O sistema retorna diferentes possibilidades de canais, larguras de banda e potências, e o equipamento faz sua seleção a partir dessas informações.

“Essa decisão fica a cargo do fabricante no seu algoritmo de alocação de canal”, explicou.

A modelagem também considera uma margem de incerteza sobre a posição do ponto de acesso: 100 metros de raio em torno da coordenada informada e dois metros para mais ou para menos na altura da antena. A equipe utiliza esse espaço para calcular as condições de proteção dos radioenlaces.

Os números apresentados são resultados do processamento do AFC com dados reais, ainda sob parâmetros norte-americanos. Não correspondem a medições de velocidade ou cobertura de uma rede em campo. Porto afirmou que o projeto, apoiado pelo NIC.br, prevê essa etapa.

“Nós estamos com um projeto em andamento nesse sentido de fazer testes de campo inclusive em breve”, disse. O professor acrescentou que a equipe precisa aguardar a regulamentação da Anatel para adequar os testes às condições de disponibilidade de espectro e aos demais requisitos brasileiros.

Ruckus faz piloto

Diego Garrido, representante da Ruckus, relatou a realização, neste ano, de um piloto de Wi-Fi em 6 GHz no modo de potência padrão, durante uma edição anterior de evento da Abrint.

“Nos foi autorizado uma faixa de frequência para banda de 6 gigahertz, e aí foi possível fazer um piloto em standard power”, afirmou, ao mencionar a iniciativa da associação com a Anatel. Segundo ele, os equipamentos já têm capacidade de operar na faixa, mas o funcionamento no Brasil depende dos ajustes e das autorizações nacionais. “Do ponto de vista de equipamento e solução, os fabricantes já estão prontos”, afirmou.

O executivo explicou que, na solução da empresa, a controladora recebe informações de longitude, latitude e altitude do ponto de acesso e as encaminha ao AFC. O sistema retorna a indicação de possibilidade de operação em potência padrão e os parâmetros que devem ser respeitados, incluindo a potência de transmissão.

Garrido também citou um projeto com um provedor na região de Buenos Aires para atendimento rural. Segundo ele, a proposta utiliza Wi-Fi externo em 6 GHz e uma conexão sem fio para transportar o tráfego da área atendida. Não foram apresentados indicadores de desempenho dessa implantação.

Cobertura dependerá da localização

Nince ressaltou que o uso de equipamentos de maior potência não produzirá uma cobertura uniforme. O mesmo modelo de ponto de acesso poderá operar com limites diferentes conforme sua localização e os radioenlaces existentes ao redor.

“Nem todo equipamento vai ter o mesmo alcance”, afirmou. “Isso vai ser caso a caso, em função da localização do equipamento, o access point, e do que existe de radioenlace em volta dele.”

Segundo o representante da Anatel, os acordos entre fabricantes e desenvolvedores de AFC terão modelos comerciais livres. A agência estabelecerá os requisitos de funcionamento, avaliará os sistemas e manterá as atribuições de administração do espectro e da base de dados utilizada para proteger os enlaces.

Porto acrescentou que as aplicações discutidas vão além do acesso residencial. O professor citou automação industrial, robótica e inteligência artificial em tempo real entre os usos de baixa latência associados ao Wi-Fi 7. Segundo ele, essas aplicações exigem enlaces com margens de segurança para lidar com interferências e perdas de pacotes.

*O jornalista viajou a convite da Abrint